Shadow

Voltando à anormalidade (de sempre)

“Não há normalidade a que retornar. Chamar de normal o mundo em que vivemos é tapar os olhos e nos omitirmos para problemas gravíssimos que testemunhamos todos os dias”

Ainda que não se saiba com clareza quais os rumos da Covid-19 em nosso país, é fato que um gigantesco número de pessoas começa a retomar suas rotinas diárias, seja por motivações de trabalho, entretenimento, consumo, o que for. Diante deste cenário nebuloso, tenho um extremo orgulho dentro de mim de não ter usado, até agora, em momento algum de minhas aulas, lives, textos e conversas, o ultra-desgastado termo “novo normal”.

É um termo irresistível, né? Ele é provocativo, sedutor, vende bem. Uma expressão simples e que magnetiza ávidos consumidores de informação para saber o que estaria por vir e o que está por vir. Muita gente está agoniada querendo ter uma bola de cristal que, ao meu ver, ninguém detém.

Quem preconiza um chamado “novo normal” prega nas entrelinhas que o mundo que se esquadrinha será novo, que nossa rotina será bem diferente do que era em muitos aspectos, e que um dito normal (novo ou velho) é o ritmo que dá o tom e rege nossas vidas.

Bem, eu sou um cético de carteirinha. Ainda que seja de proporções incalculáveis os prejuízos que a pandemia gerou, gera e irá gerar nas mais diversas esferas sociais, políticas, econômicas e culturais, eu parto do pressuposto que o vírus não provocará mudanças drásticas coisa nenhuma.

Claro que já estamos presenciando certas mudanças em hábitos, comportamentos e modos de ser dos indivíduos na pandemia. Mas sou cauteloso pra sair concluindo coisas sobre tudo isso e resisto fortemente a generalizações reducionistas.

Para mim, claro que teremos mudanças, mas mínimas e lentas. Vejo que tenderemos a ser mais cuidadosos e criteriosos com nossa higienização pessoal. Digitalização da comunicação é algo que veio pra ficar e só tende a aumentar. No entanto, apenas quando sair a vacina (oxalá que saia logo) é que então voltaremos às nossas vigentes condições normais de temperatura e pressão.

Cacarejar que um “novo normal” bate à nossa porta é algo que atrai pessoas, magnetiza audiências, vende livro, enche palestra, bomba lives, rende horas e horas de irresponsáveis elucubrações.

Aliás, nesses tempos de confinamento forçado, milhares de lives brotaram em nossas timelines com pseudo-gurus de plantão, destilando as mais desvairadas certezas do que iria acontecer e do que não iria acontecer.

Sem o menor anteparo científico, acadêmico ou conceitual, vi muitas, mas muitas pessoas, de forma despudorada, pregarem isso ou aquilo. Com meus poucos cabelos brancos que começam sorrateiramente a aparecer, parece que meu radar de detectar charlatões fica mais aguçado. Eu os detectei aos montes.

Nas poucas lives que participei, sempre procurei analisar tudo com a lupa bem ajustada e muito reticente em relação a tudo que via. Tenho por hábito “subir no ombro de gigantes para tentar enxergar mais longe”, como bem nos ensinou uma vez o astrônomo, alquimista, filósofo, teólogo e cientista inglês Isaac Newton.

Tenho o saudável cacoete de convocar bons autores nas minhas aulas para iluminar a minha percepção e de meus queridos alunos sobre quaisquer coisas de nosso entorno. Ainda bem que temos pessoas lúcidas no mundo hoje, como o antropólogo Bruno Latour — pra mim, o maior intelectual do planeta hoje.

Latour nos ofereceu, ao meu ver, uma das frases mais certeiras e foi na jugular ao dizer que “Não há normalidade a que retornar”. Inclusive, essa frase curta, mas “lacradora” (para pegar o termo da modinha) foi projetada em alguns edifícios no centro de São Paulo.

Definitivamente, não há normalidade a que retornar. Chamar de normal o mundo que vivemos é tapar os olhos e nos omitirmos para problemas gravíssimos que testemunhamos todos os dias. Para citar apenas um, escolho um dos problemas mais capitais e mais graves: a extrema desigualdade social que assola nosso país de uma forma vil, secular, estrutural, crônica e endêmica e de complexa resolução.

Claro que, com o avançar das semanas e meses de isolamento social, as pessoas anseiam pela volta às suas vidas, a fazer o que faziam antes, voltar ao normal, ao boteco cheio, ao show, à arquibancada, à praia e ao aeroporto. No entanto, para o antropólogo francês, não há porque voltarmos à vida como ela é.

Para Latour, a pandemia nos evidenciou com muita clareza que sim, é possível cessar a atividade econômica global, ainda que inúmeros líderes políticos tenham passado anos e anos a fio bradando que o “trem do progresso” não deveria e não poderia parar de jeito nenhum.

E muito mais necessário do que simplesmente voltar à nossa rotina usual do dia a dia, uma das reflexões mais importantes seria aproveitarmos esse momento atípico para buscarmos novas formas de viver, produzir e consumir, sobretudo diante de uma crise como essa, sem precedentes, e que permeia os quatro cantos do planeta.

O meu olhar nesse momento é de cautela, de extrema atenção à detalhes, e minha postura é continuar subindo no ombro de gigantes como Latour, André Lemos, Muniz Sodré e tantos outros. Seguimos acompanhando tudo que conseguimos absorver. Concentro meu olhar hoje lá pra fora do Brasil. Ainda que cada país esteja reabrindo à sua maneira, gosto de tentar colher pistas do que acontece hoje na reabertura da Europa, China e Estados Unidos, para tentar projetar o que pode vir a acontecer aqui no Brasil quando tudo voltar à “anormalidade de sempre”. Rá!

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