Shadow

“O vôo”: quando os maus hábitos colidem com a vida profissional

Drama O Vôo (Flight, EUA, 2012) nos leva a refletir sobre o peso do vício em nossas vidas

Eu me lembro muito bem de uma de minhas experiências corporativas, onde trabalhava na região do Itaim em São Paulo, em uma grande empresa, uma multinacional. Neste local, no mesmo departamento que o meu, trabalhava um rapaz (nem tanto um rapaz, ele já estava na casa dos quarenta), extremamente competente e boa gente, com quem eu até conversava bastante sobre trabalho e amenidades. A questão é que eu sempre achei que havia alguma coisa estranha, diferente nele, mas eu nunca consegui apontar exatamente o que.

Alguns dias na semana, eu costumava chegar mais cedo no trabalho e aproveitava para tomar café numa pequena padaria que ficava próxima da empresa. Numa destas manhãs, me sentei numa das mesas do local que tinham vista para o balcão do estabelecimento, e lá eu avistei este companheiro de trabalho que mencionei. Foi então que eu percebi: no café que ele estava tomando, o balconista havia misturado uma bebida alcoólica. Provavelmente pinga ou cachaça. Ou seja, este meu conhecido já estava bebendo antes das sete horas da manhã. Não demorou para eu ligar os pontos; ele tinha um odor estranho, sua pele era mais vermelha do que o comum, e eu já havia reparado que ele tremia um pouco em alguns momentos do dia, provavelmente uma espécie de abstinência leve.

Eu sei que isto talvez não signifique muita coisa para muita gente, mas confesso que na época fiquei pensando bastante na situação. Pensei até em tentar conversar com ele mas desisti. E alguns meses antes de eu sair do emprego, ele foi desligado da empresa, por motivos que eu nunca soube. Falta de competência ou empenho provavelmente não foi, pois ele de fato era muito bom no que fazia. E não vou afirmar que foi por causa da bebida porque não tenho como saber de fato. Porém, o caso serviu para me certificar de que, obviamente, álcool (ou qualquer outro vício na verdade), não combina com trabalho. O que nos leva ao filme desta quinzena, o excelente drama O Vôo (Flight, EUA, 2012), produção que nos leva a refletir sobre o peso do vício em nossas vidas, seja ele sob qualquer prisma; pessoal, familiar, profissional.

Depois de uma sequência inicial que traz uma das mais incríveis e aterrorizantes cenas envolvendo aviões no cinema, em que um vôo comercial de grande porte é salvo após ser pilotado de cabeça para baixo, O Vôo, um dos grandes trabalhos da carreira do diretor Robert Zemeckis (trilogia De Volta Para o Futuro, Forrest Gump), se apoia em uma corajosa e torturada performance do grande Denzel Washington, sem dúvida uma das melhores de sua carreira. Não é sempre que um personagem embarca em uma jornada pessoal tão angustiante e que ao mesmo tempo faz com que o público torça por ele ao longo de toda a produção. Mesmo que esta perigosa jornada pessoal seja uma escolha deliberadamente equivocada por parte do protagonista.

Washington interpreta Whip Whitaker, um piloto veterano de uma companhia aérea comercial, que ao longo dos anos adquiriu uma certa tolerância à quantidades substanciosas de álcool e cocaína que seriam suficientes para matar a maioria das pessoas que adquirem o vício. Na primeira cena do filme, ele está em um quarto de hotel terminando uma noitada ao lado de seu affair, uma comissária de bordo chamada Katerina (Nadine Velazquez). Whip tem um voo programado ainda naquela manhã, e para dar um up no organismo, ele cheira mais duas fileiras de cocaína e bang! Ele está pronto para a ação. Seu co-piloto (Brian Geraghty), até suspeita do companheiro de vôo, mas Whip projeta uma boa dose de equilíbrio e autoridade atrás de seus óculos escuros de aviador.

O avião decola durante uma incômoda tempestade, e após Whip conseguir contorná-la, uma falha mecânica coloca a aeronave em queda livre. Zemeckis e sua equipe retratam o terror na cabine de maneira atordoante, e agindo por instinto, frio como gelo, o veterano piloto inverte o avião e o conduz em uma descida até um pouso de emergência em um campo aberto. Apenas seis pessoas morrem no acidente, incluindo Katerina, e após performar um verdadeiro milagre, Whip é aclamado como herói.

Após a assustadora experiência de quase-morte, a ideia é que Whip deixe a bebida e as drogas de lado. Ele parte rumo à fazenda do avô onde foi criado e lá ele se livra de toda a bebida do local, com o objetivo de se manter limpo pelo menos por um tempo. Não demora muito e Whip é informado por seu representante do sindicato (Bruce Greenwood) e seu advogado (Don Cheadle), que seu exame de sangue revelou que o piloto estava conduzindo a aeronave sob o efeito de álcool. Uma audiência pública é solicitada pelo governo, e se de fato for comprovado que Whip estava pilotando bêbado, ele pode ser sentenciado à prisão perpétua. Enquanto isso, ele desenvolve uma amizade com Nicole (Kelly Reilly), a quem ele conheceu no hospital. Ela o leva a uma reunião dos Alcoólicos Anônimos, mas Whip sente que aquilo não é para ele.

Aos poucos se torna claro que o vício é a coisa mais importante na vida de Whip; o vício lhe custou um casamento e o respeito de seu filho. Um dos aspectos mais efetivos na performance de Washington é a maneira com que ele utiliza -se de uma feição impassiva e confiante para esconder o seu vício. “Ninguém mais poderia ter aterrisado aquele avião!” ele insiste, e de fato, testes em um simulador de vôo corroboram com sua opinião. Entretanto, isso não muda o fato de que Whip estava chapado durante o acontecimento.

Pesquisas recentes mostram que o consumo de álcool aumentou 43% em 10 anos, e os brasileiros bebem mais que o resto do mundo. Além de gerar impactos na saúde, esses números também afetam a produtividade no trabalho. Isso porque os vícios não ficam restritos apenas ao horário de lazer, e têm efeitos no ambiente laboral. O consumo de drogas, como o álcool e até o tabaco, leva a mudanças no funcionamento do cérebro. Especialmente quando a pessoa já encara a dificuldade do vício. Como resultado, é muito comum que quem bebe ou fuma não tenha muita concentração. Quanto mais intenso é o vício, mais difícil é se concentrar no que deve ser feito, já que o pensamento permanece na próxima parada para fumar ou no momento de beber.

Assim, a produtividade no trabalho fica extremamente defasada. As pesquisas também revelaram que, mesmo quando não leva à embriaguez, o álcool altera a capacidade cerebral. Por causa da sua atuação, ele gera problemas cognitivos, motores e de memória que não são percebidos por quem o consome. Com isso, aumentam os riscos de haver acidentes. Um funcionário que bebe frequentemente e dirige ou comanda uma máquina está mais suscetível a ocorrências.

Outro grande impacto na produtividade do trabalho decorre da piora do clima organizacional. Estudos já revelaram que o álcool pode alterar a personalidade de quem o consome, mesmo depois de uma pequena dose. Inclusive, uma das mudanças de personalidade é a agressividade, que surge quando a pessoa não consegue avaliar corretamente as consequências de suas ações. Estes aspectos psicológicos interferem diretamente em como os funcionários se relacionam no local de trabalho e como se integram a outras pessoas. Diante do vício, os relacionamentos são piorados e os conflitos no ambiente de trabalho surgem com maior intensidade. Além de isso levar à falta da atividade em equipe e da participação colaborativa, é algo que demanda ações específicas, principalmente por parte do RH. Com isso, a eficiência é comprometida.

Diante de funcionários que encaram o vício em cigarro e/ou álcool e/ou drogas, é fundamental que o negócio adote uma postura proativa. Em vez de apenas lidar com licenças, afastamentos e quedas de produtividade, o ideal é buscar uma atuação adequada. Para tanto, é relevante estimular a prática de hábitos saudáveis e promover a conscientização. A ideia é mostrar que lidar corretamente com esses aspectos ajuda os colaboradores a serem mais eficientes e, consequentemente, contribui para o crescimento empresarial. Para melhorar os resultados, vale a pena até firmar parcerias com empresas que ofereçam programas especiais. Assim, o processo de conscientização e cuidado com a saúde ganha intensidade.

Voltando ao filme, Denzel Washington é um dos atores mais talentosos e competentes em atividade, e aqui ele coloca todo seu talento e segurança no que faz, sem nunca exagerar no tom do personagem. Ele interpreta o pior tipo de viciado: Aquele que não acredita que o vício o agride de alguma forma, e que mantém um controle obsessivo de suas emoções. Há várias cenas em O Vôo que convidam o ator a apoiar sua performance em cima de explosões emocionais, e um ator menos capacitado sem dúvida seguiria por este caminho. Washington, porém, se apoia apenas em seus olhos, em sutis trejeitos e em seu dom para projetar emoções de maneira internalizada. É sem dúvida uma performance ideal para o tipo de trama periclitante que o filme oferece.

O Vôo, sem dúvida um título com mais de um significado, marcou em 2012 o retorno de Zemeckis à direção de um projeto live-action, depois de 12 anos dirigindo animações que utilizam captura de movimento. Trata-se de um filme absolutamente impecável, que discorre sobre um tema impactante de maneira honesta e realista. O vício em drogas, álcool ou qualquer outro elemento tóxico ou não (jogatina, sexo, etc), é altamente destrutivo para qualquer indivíduo, obviamente não só na esfera profissional. Contudo, existe hoje uma cultura terrivelmente equivocada de que o álcool e principalmente as drogas são combustíveis para elevar o nível das performances no mundo corporativo. Jovens executivos trabalhando 16 horas por dia sem sentir o ritmo devido ao abuso de substâncias se tornou algo comum. Contudo, assim como o Whip Whitaker deste O Vôo descobre a duras penas, os indivíduos nesta situação também descobrirão que os maus hábitos sempre cobram seu preço.

O Vôo está disponível no catálogo da Netflix.

fonte: https://administradores.com.br/artigos/o-v%C3%B4o-quando-os-maus-h%C3%A1bitos-colidem-com-a-vida-profissional