Shadow

O Segredo da Cabana: a burocracia do mal

Filme reúne todos os clichês possíveis e imagináveis do cinema de horror e os joga no liquidificador, junto de outro pacote de clichês cinematográficos: os do Business Cinema

Você já viu esse filme: Um grupo de jovens bonitos e cheios de tesão embarcam em uma viagem rumo à uma cabana na floresta para um final de semana de muito sexo e drogas. No caminho, eles param em um posto de gasolina para pedir instruções e são atendidos por um cara muito estranho e suspeito, que pode ou não ter dado as informações corretas para a galera. Eles chegam até a cabana, que encontra-se no meio do nada, e à noite, depois de algumas brincadeiras safadinhas, a turma percebe que há algo muito estranho acontecendo no local.

Como mencionei, você já viu esse filme, não é? Não. Na verdade você NÃO viu esse filme. O Segredo da Cabana (Cabin in the Woods, EUA, 2011), pega todos os clichês possíveis e imagináveis do cinema de horror e os joga no liquidificador, junto de outro pacote de clichês cinematográficos: os do Business Cinema. Explico (e aí vão alguns spoilers que podem melar a experiência de quem ainda não viu o filme):

Quando tudo no filme levava para o típico slasher movie (subgênero do horror que envolve um assassino mascarado aniquilando os jovens cheios de tesão que mencionei lá em cima), o diretor Drew Goddard (Maus Momentos no Hotel Royale) e o co-roteirista Joss Whedon (Os Vingadores, Vingadores: Era de Ultron), revelam o que REALMENTE está acontecendo por trás da situação que se desenrola na tal cabana do título: A real é que toda a situação está sendo orquestrada por uma empresa (!). Sim, uma empresa, a sua típica empresa que tem todos os departamentos que você já conhece, como o RH, o time de desenvolvimento, T.I., Planejamento, Marketing, estagiários, etc. O objetivo-mor da tal empresa eu não revelarei aqui, como forma de não entregar o principal segredo do filme, mas o que dá para dizer é que Whedon e Goddard trabalham sua história de forma extremamente inteligente e pertinente às situações que vivenciamos diariamente no mundo corporativo.

O que dizer por exemplo dos dois encarregados responsáveis por fazer as coisas acontecerem dentro da companhia? Interpretados pelos ótimos Richard Jenkins (Deixe-me Entrar) e Bradley Whitford (Corra!), os dois engravatados personificam praticamente todos os clichês do mundo corporativo, e a forma com a qual eles se referem aos funestos acontecimentos de seu empreendimento do mal é hilariante, e sempre faz uma esperta analogia com o mundo corporativo real. Uma sequência impagável, por exemplo, é quando o pessoal do escritório decide fazer um bolão para descobrir de que forma uma determinada vítima da cabana será assassinada, e o leque de possibilidades é vasto: zumbis, canibais, vampiros, espíritos, criaturas e monstros variados estão entre as opções.

Ao longo de sua carreira como roteirista, Whedon tem escrito menos sobre pessoas que precisam escapar das burocracias do Mal, e mais sobre as pessoas que comandam grandes organizações, onde algumas destas já são acostumadas a cometer um quantia significante de maldade no curso de seu trabalho. Foi assim em séries como Buffy: A Caça-Vampiros e Firefly, e no derivado cinematográfico da segunda, Serenity: A Luta Pelo Amanhã (2005), onde corporações malignas estavam sempre por trás das ações dos principais vilões.

Sob a ótica de Whedon, corporações são verdadeiras máquinas que se auto-reproduzem e espalham o mal no mundo como uma doença. E praticamente metade deste O Segredo da Cabana é visto pela perspectiva dos burocratas do filme. Eles acabam por ser tão irônicos e sarcásticos quanto os heróis e heroínas dos filmes do gênero, mas também são trágicos de maneira comprometida e adulta.

Acredito que a maioria aqui já assistiu algum filme ou seriado onde o grande vilão da história não era especificamente uma pessoa, mas sim toda uma empresa ou corporação que visava lucros independentemente do mal que causasse à humanidade. Bons exemplos são a Mega Corporação Weyland-Yutani, da franquia Alien, e a Tyrell Corporation, do filme Blade Runner: O Caçador de Androides. E é claro que no mundo real, a história se repete e talvez de um modo “mais light”. Algumas empresas, como a KFC e Monsanto, entre tantas outras, ainda que não possam ser consideradas “malignas”, certamente possuem um ar de intriga em volta delas que pode deixar os mais paranoicos com os cabelos em pé. Não vou entrar nos detalhes aqui, mas uma rápida busca no Google já basta para os mais curiosos satisfazerem sua curiosidade.

O Segredo da Cabana é sem dúvida um dos filmes de horror mais diferentes e originais de todos os tempos. Sem falar que ainda apresenta um dos melhores design de monstros da história do gênero. Goddard e Whedon sempre foram bons na elaboração de novas criaturas, mas frequentemente, eles se saem melhor quando criam uma sensação de inquietude ao implantar uma visão de mundo e comportamentos monstruosos que se manifestam na forma humana. É sempre mais chocante observar pessoas comportarem-se de maneira monstruosa do que assistir à monstros literais, e os monstros de O Segredo da Cabana dão as caras em ambas as formas. Seja como uma brincadeira com os clichês do horror ou como uma sátira ao mundo corporativo, O Segredo da Cabana é uma divertida e original incursão cinematográfica que assusta e faz pensar.

fonte: https://administradores.com.br/artigos/o-segredo-da-cabana-a-burocracia-do-mal