Shadow

Antes só do que mal acompanhado: em meio ao ódio dos tempos modernos, filme é uma lição de empatia

“Com apenas 87 minutos de duração, o filme nos ensina a ser pessoas melhores. Nada mais necessário do que isso nos raivosos dias de hoje”

Assim como fiz no final do ano passado, meu primeiro como colunista aqui do Portal Administradores, quando falei sobre o drama Um Homem de Família (The Family Man), escolhi a última publicação do ano para falar sobre um filme mais “família”, mas cujo viés corporativo também existe e é essencial para que a mensagem do filme funcione. Estamos em tempos das festas de final de ano, onde tudo parece mais à flor da pele; as emoções, as relações, o comércio e o trabalho. Este Antes Só do que Mal Acompanhado (Planes, Trains and Automobiles, EUA, 1987), é fundado não só nos aspectos mais interessantes e relevantes desta época do ano, como também na natureza essencial de seus atores. Trata-se de Um filme perfeitamente interpretado e construído, onde tudo flui naturalmente. Os grandes Steve Martin e John Candy não interpretam personagens, mas sim versões de si mesmos. E é por isso que a comédia, que começa seguramente plantada entre os subgêneros do road movie e da buddy comedy, é capaz de revelar tanto coração e tanta verdade.

Alguns filmes são obviamente grandiosos, outros gradualmente empurram sua grandeza em nossa direção. Quando vi Antes Só do que Mal Acompanhado pela primeira vez em minha vida adulta, eu continuei gostei imensamente do filme, e só isso. Contudo, o filme continuou a viver em minha memória. Assim como outras obras emblemáticas do cinema, como A Felicidade não se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946), E.T.: O Extra-Terrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial, 1982) e Casablanca (1942), Antes Só do que Mal Acompanhado não só contém um tema de apelo universal, como também une este apelo aos atores certos e a uma história simples e certeira, colocando a produção em um patamar muito acima de outras comédias que vieram antes ou depois. É um filme tão especial e praticamente perfeito, que assisti-lo ao lado da família se tornou uma tradição do feriado de Ação de Graças americano.

A história é familiar. Steve Martin interpreta Neal, um publicitário de Chicago cuja persona está sempre impecavelmente vestida e barbeada. Neal é meticuloso e um tanto metido, aspecto que se destaca nele logo de cara e em tantas outras pessoas com as quais convivemos no ambiente de trabalho, por exemplo. John Candy (falecido em 1994 aos 43 anos de idade em decorrência de um infarto), interpreta Del, um caixeiro viajante também de Chicago que vende anéis para cortinas de chuveiro (“as melhores do mundo”, segundo o próprio). Del é enorme, anda coberto por camadas de roupa que não combinam e seu bigode remete àqueles antigos vigaristas dos desenhos animados do Pica-Pau. Sua gravata-borboleta também é suspeita. Anyway, os dois se encontram em Manhattan dois dias antes do feriado do Dia de Ação de Graças, e ambos querem chegar em suas casas à tempo. Numa improvável (mas necessária) virada do destino, os dois acabam tendo que juntar forças para superar cada uma das hilariantes indignidades que uma viagem não planejada pode infligir sobre o homem moderno (Estamos em 1987, então nada de Uber, celulares, etc…). A questão é que Del só quer agradar. E Neal só quer ser deixado em paz.

O falecido John Hughes, que escreveu, dirigiu e produziu o filme, foi um dos cineastas mais prolíficos dos últimos 30 anos. Ele não é considerado um cineasta brilhante, mas algumas de suas obras, como Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985), Mulher Nota Mil (Weird Science, 1985), Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) e Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990), possuem ferventes admiradores. Eu incluído. O que pode ser dito sobre Hughes, entretanto, é que ele geralmente produzia filmes com histórias reais sobre pessoas das quais ele tinha uma boa ideia de como pensavam e se comportavam; suas muitas comédias adolescentes, por exemplo, permanecem muito mais inventivas do que qualquer outra saga adolescente repleta de grosserias lançadas nas últimas décadas. A história enterrada que realmente move este Antes Só do que Mal Acompanhado não é somente sobre uma amizade que se desenvolve lentamente, mas sim sobre empatia. É um filme sobre a condição de compreender como o próximo se sente. É sobre a compaixão acima de tudo.

Hoje, mais de trinta anos depois do lançamento do filme, vivemos em um mundo onde o ódio é disseminado sem nenhum tipo de restrição. Os ataques acontecem nas redes sociais (a criação e disseminação de termos como “haters” e “bullying” não foi por acaso), e nos ambientes de convívio social, como por exemplo, o ambiente de trabalho. Convivemos com uma realidade onde não existe empatia nenhuma com o próximo, e seja em uma grande corporação ou mesmo em um espaço de coworking, pensar um pouco mais no colega ao lado é uma forma de melhorar a convivência e transformar a rotina com mais leveza. Na geração do compartilhamento, não podemos mais ignorar os sentimentos e problemas das outras pessoas. O individualismo já não cola mais, é coisa do século passado. No ambiente de trabalho, às vezes tudo o que um colega precisa é um pouco de atenção. Para você, o trabalho daquele parceiro de ilha pode parecer fácil, sem grandes empecilhos. Mas, como será que ele se sente em relação às demandas dele? E será que a vida dele fora daquele ambiente está 100% bem? Não existe isso de separar totalmente os problemas do trabalho das questões pessoais. Somos humanos e é natural que o nosso emocional fique abalado quando algo em casa acontece.

Del, como podemos sentir desde sua primeira cena, nasceu com esta empatia. Ele instintivamente se identifica com os problemas de Neal. Ele genuinamente se sente mal por descobrir que roubou o táxi do novo companheiro de viagem numa das primeiras sequências do filme, e ele imediatamente oferece ajuda quando o vôo da dupla é desviado para Kansas devido ao mau tempo. Neal, por outro lado, depende de seus cartões de crédito e sua auto-confiança. Ele quer fazer seus próprios planos, reservar seu próprio quarto, alugar seu próprio carro. Ele passa o filme todo tentando se ver livre de Del e falhando todas as vezes; já Del passa o filme sendo magoado por Neal e mesmo assim o continua ajudando. A questão é que Del não é perfeito, e Neal não é uma pessoa ruim. Porém, falta a Neal uma leitura mais aberta do ser humano que está viajando ao seu lado, assim como muitas vezes nos falta o senso de empatia com a pessoa que trabalha ao nosso lado e convive conosco, dia após dia.

Uma das cenas-chave do filme ocorre ainda em seu início, num quarto de hotel que a dupla acaba sendo forçada a dividir. Neal explode e dispara todo tipo de palavras duras na direção de Del, dizendo que suas piadas são uma droga, suas histórias não são interessantes e que ele preferiria assistir um seminário sobre seguros do que escutar mais uma das anedotas inúteis vindas do homem gordo à sua frente. Candy interpreta a cena com pura honestidade; ele mostra Del como um homem magoado e entristecido, e não pela primeira vez. Ele então relembra como a pessoa mais importante de sua vida uma vez disse a ele que ele tentava agradar demais aos outros, e que ele não deveria sempre tentar ser tão bondoso. É neste ponto que Del ganha o coração do espectador, e onde Antes Só do que Mal Acompanhado se revela mais do que apenas uma comédia.

Contudo, trata-se também de uma tremenda comédia. É impossível não gargalhar com a clássica cena em que a dupla acorda no quarto de hotel dormindo de conchinha ou com a sequência onde Neal dispara algumas dezenas da palavra f***-se na direção de uma atendente de uma locadora de carros, depois que o carro alugado que ele pegaria para voltar para casa é roubado do estacionamento do aeroporto. Del para variar salva o dia ao resgatar Neal com um carro alugado (sabe-se lá como), e tudo o que acontece dentro e fora deste carro nas sequências seguintes é de chorar de rir.

As últimas cenas do filme porém carregam a recompensa emocional pela qual o público já meio que esperava. E aí é a vez de Steve Martin mostrar o grande ator que é. Para Neal, tais cenas refletem uma espécie de renascimento moral para o personagem. Há uma distinta diferença entre o homem arrogante que entra no mesmo avião que Del no início do filme, e o homem que desce de um trem com um semblante preocupado após constatar que algo na história de Del não encaixa. Neal é agora um homem que não mais julga as pessoas por sua aparência ou por seus próprios padrões egoístas. Neal agora sabe o que é empatia.

Certa vez eu li uma entrevista do grande crítico de cinema Roger Ebert, infelizmente também falecido, onde ele cita uma noite alguns anos depois do lançamento deste Antes Só do que Mal Acompanhado, em que ele encontrou o ator John Candy no bar de um hotel em Nova York. Os dois apareceriam no mesmo programa de TV no dia seguinte, e conversaram por um tempo naquela noite. Ebert disse que Candy estava deprimido. As pessoas o amavam, mas o ator parecia não saber disso, ou talvez este amor não fosse suficiente. Candy era um homem gentil e ninguém tinha nada contra ele, mas ainda assim ele se sentia mal consigo mesmo. Tudo o que ele queria era fazer as pessoas rirem, porém às vezes ele exagerava e passava a odiar a si mesmo por fazer aquilo em seus filmes. Ebert imediatamente pensou em Del. Havia tanta verdade no papel que o filme todo foi transformado por ela. Hughes sabia disso e Steve Martin também. E todos colocaram o coração na empreitada.

Os filmes que perduram, aqueles aos quais reprisamos diversas vezes, nem sempre têm temas sofisticados ou significativas complexidades. Às vezes eles perduram porque são verdadeiras flechas apontadas para o coração. Quando Neal humilha Del no quarto de hotel e o rosto do grandalhão se entristece, trata-se de um momento que não apenas define a vida dele, como também funciona como o início de uma virada na vida de Neal. Pois assim como Del, Neal também é uma alma solitária, mas é muito organizado para enxergar isso. Antes Só do que Mal Acompanhado é um filme que nos ensina a olhar com mais atenção para a pessoa que senta ao seu lado no escritório, ou aquela pessoa que conversa com você pela internet todos os dias e assumimos como banalidade. É um filme que com apenas 87 minutos de duração e entre muitas gargalhadas, nos ensina a ser pessoas melhores. Nada mais necessário do que isso nos raivosos dias de hoje.

fonte: https://administradores.com.br/artigos/antes-s%C3%B3-do-que-mal-acompanhado-em-meio-ao-%C3%B3dio-dos-tempos-modernos-filme-%C3%A9-uma-li%C3%A7%C3%A3o-de-empatia