Shadow

A Roda da Fortuna: as engrenagens do poder

No filme, irmãos Coen usam suas caricaturas para falar sobre ganância, poder, a maldade e a inocência inerentes do ser humano

A Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy, UK/ALE/EUA, 1994), tem início com uma vistosa e romântica imagem de uma Nova York que nunca realmente existiu. A neve cai em abundância enquanto a câmera se movimenta entre os arranha-céus que posam como símbolos de progresso e glamour. Na beirada de um deles, pronto para pular, está Norville Barnes (Tim Robbins, de Um Sonho de Liberdade). Assim como o cenário em torno dele, e assim como tudo neste engraçado e visualmente deslumbrante filme dos irmãos Joel e Ethan Coen (Onde os Fracos não têm Vez, O Grande Lebowski), Norville é um mito da cultura pop saído diretamente dos filmes antigos. Apesar da história ser ambientada em 1958, o visual, os diálogos e a trama evocam os filmes dos anos 30 e 40. Acuracidade histórica não significa nada quando se está carinhosamente emulando o trabalho de lendas como Frank Capra, Preston Sturges e Howard Hawks.

À medida em que o filme começa a contar como Norville foi parar ali naquele beiral, fica claro que o protagonista é aquele típico herói ao estilo Frank Capra; um jovem ingênuo do interior, Norville chega à Nova York e arruma um emprego na sala de correio das gigantescas e impiedosas Indústrias Hudsucker. No dia seguinte, ele se torna o presidente da companhia. Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados) interpreta Amy Archer, uma esperta repórter que se passa por secretária de Norville apenas para conseguir entender a ascensão meteórica do rapaz. Amy sabe que Norville está provavelmente sendo usado como um laranja para algo maior, algo que o humilde rapaz nem consegue conceber. Porém, mesmo com toda sua esperteza e comprometimento profissional, ela acaba se apaixonando por ele.

Porém, isso não impede que Amy tenha razão sobre as maquinações que levaram Norville ao topo tão rápido; enquanto o rapaz trabalhava lá embaixo na correspondência, o presidente da companhia, Waring Hudsucker (o veterano já falecido Charles Durning), está prestes a se jogar pela janela, numa atitude comum entre executivos da época que não aguentavam segurar a pressão quando as coisas iam para o ralo. O inescrupuloso executivo Sidney J. Mussburger (o saudoso Paul Newman), decide então que o corpo executivo da empresa deve depreciar as ações da Hudsucker para então comprá-las por uma barganha e tomar o controle da companhia. Mas para isso, eles precisam de um idiota comprovado que possa ser nomeado presidente de fachada da empresa, e é aí que Norville entra na equação.

Porém, quando Norville assume a presidência, ele traz consigo uma invenção. Em um pedaço de papel cuidadosamente dobrado em seu bolso, ele tem o design da coisa: Um simples círculo. Sem estragar a experiência de quem ainda não assistiu ao filme, o que posso dizer é que este segredo trata-se de outra lenda da cultura pop, de certa forma. Quando o invento de Norville se transforma em um esmagador sucesso, Amy passa a lamentar ter julgado o rapaz tão mal, enquanto que o cruel Sidney é forçado a interferir na farsa que criou.

A Roda da Fortuna, o então quinto filme dos irmãos Coen, e que aqui assinam o roteiro junto de Sam Raimi (Evil Dead, Darkman: Vingança sem Rosto), tem tudo de bom e de ruim que pode ser encontrado no cinema dos irmãos. Com exceção da obra-prima Onde os Fracos não têm Vez e talvez o modesto Um Homem Sério (A Serious Man, 2009), os Coen geralmente não se importam em criar personagens realistas. Seus personagens são em sua grande maioria caricaturas, que extrapolam aspectos da vida cotidiana em suas personalidades. Não é diferente aqui, onde os irmãos utilizam-se de suas caricaturas para falar sobre ganância, poder, a maldade e a inocência inerentes do ser humano. Mesmo que seu filme seja ambientado em uma época onde o mundo corporativo ainda era visto sob um diferente prisma.

Como Norville, Robbins projeta um apelo abobalhado, que ganha imediatamente a simpatia do espectador. Norville não é propriamente tapado, mas sua ingenuidade em dados momentos faz com que o público pense nele desta maneira. Ele também parece especialmente pequeno quando colocado em contraste com os gigantescos cenários da produção. No inicio, Norville labuta em uma sala de correspondência lotada, que mais parece um porão; um monstro mecânico formado por tubos pneumáticos. Os escritórios executivos entretanto, têm tetos altos, janelas imensas e móveis imponentes. O “business” é visto como uma força sinistra que subjuga a tudo e a todos. A sempre belíssima Jennifer Jason Leigh estava então em seu auge, e aqui a atriz esbanja beleza e energia num papel que lhe cabe como uma luva. E ter a oportunidade de assistir um ícone do cinema como Paul Newman num papel tão perniciosamente suculento é por si só uma atração à parte.

Quando se examina as organizações por meio das lentes da política é comum identificar os padrões de interesses concorrentes, de conflitos e os jogos de poder que sempre dominam a cena. Ao verificar a organização e a administração como um processo político, ficam nítidos os diferentes estilos de governo, os interesses divergentes de cada grupo – o que torna os conflitos algo muito natural em qualquer organização. As organizações autocráticas, burocráticas ou tecnocráticas têm tanto significado político quanto os esquemas de gestão conjunta de trabalhadores e administração, como os usados no sistema alemão de gestão ou em sistemas mais plenamente desenvolvidos de controle pelos trabalhadores. A natureza política desses esquemas simplesmente é de um tipo diferente, baseada em diferentes princípios de legitimidade. Logo, pode-se analisar a política organizacional de uma forma sistemática, focalizando a atenção nas relações entre interesses, conflito e poder. A política organizacional surge quando as pessoas pensam diferentemente e querem agir diferentemente quando confrontadas com diferentes caminhos de ação.

Estiloso e perspicaz, A Roda da Fortuna não se aprofunda nos temas acima, mas sua natureza fantasiosa está toda mergulhada em tais conceitos. O filme tem seus problemas, mesmo para os fãs dos irmãos Coen. A produção oscila depois que a invenção de Norville o transforma em um sucesso, e quando ele perde o apelo de sua inocência, é fácil para o público perder o interesse no personagem. Mas ao longo do caminho, há muito o que admirar. Algumas participações especiais são encantadoras, assim como o excelente score de Carter Burwell (colaborador habitual dos Coen), e o impecável design de produção à cargo de Dennis Gassner (1917, Blade Runner 2049), que reforça ainda mais o tom de conto de fadas do filme. E como todo bom conto de fadas, Norville também tem a sua jornada de ascensão, queda e redenção. Tudo sob o verniz daquela Nova York que nunca realmente existiu.

A Roda da Fortuna está disponível para o mercado de Home-Video.

fonte: https://administradores.com.br/artigos/a-roda-da-fortuna-as-engrenagens-do-poder

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